Como falar de morte com as crianças – I

16 de setembro de 2022

Design sem nome (1)Falar de sexo e morte é algo que muitos encaram como assuntos constrangedores. Ainda mais quando se trata de uma conversa com crianças. Mas não tem jeito: sexo e morte fazem parte do cotidiano familiar e não podemos ignorar. Casal Feliz desejando ajudar os pais neste sentido, publica o artigo abaixo. Pode ser constrangedor, mas é preciso conversar com os nossos filhos sobre este tema. Caso contrario, outros falarão e pode ser pior.

A morte é um fenômeno vital, uma realidade que todos os seres humanos estão destinados a vivenciar. Todo o otimismo da ciência só conseguiu vislumbrar uma vida mais longa.

O que é a morte?

- As pessoas em geral acreditam que a morte seja:
– o fim, o último processo da vida;
– uma passagem, uma transição, isto é, o começo de uma nova vida;
– a união do nosso espírito com Deus;
– uma espécie de sono eterno, ou seja, um estado de paz, de serenidade total.

O TABU DA MORTE EM NOSSA SOCIEDADE

Os avanços da ciência e da tecnologia contribuíram para alimentar uma fantasia inconsciente de onipotência, como se a natureza estivesse totalmente dominada e nós, seres humanos, tivéssemos chegado a ser imunes à morte ou mesmo estivéssemos perto da possibilidade de sermos eternos. Viver cento e vinte anos hoje, já não é mais um sonho impossível. Estudiosos já falam na possibilidade do ser humano viver trezentos anos, num futuro não muito distante daqui.

Uma outra razão deve-se ao excessivo valor que é dado à juventude e à beleza. Cada vez mais estes aspectos são tomados como valores e modelos para os quais todos se inclinam. As indústrias fabricantes de cosméticos, estão com seus faturamentos nas alturas. Basicamente todos os dias são lançados novos produtos de beleza e criadas novas engenharias prometendo livrar as pessoas de quase todas as marcas resultantes do processo d envelhecer. As pessoa não somente querem não morrer, mas também, não envelhecer, como se isso fosse possível. Ainda que retardadas, as marcas do envelhecimento, não podem ser plenamente detidas.

Uma última razão do tabu da morte em nossa sociedade, está ligada ao excessivo apego que damos aos bens materiais. O materialismo tolhe a nossa visão do transcendente e nos enclausura numa imanência mórbida, cuja existência é movida pela ânsia de possuir coisas, de ter bens materiais para servirem de âncoras de uma vida insegura e ameaçada por todos os lados, sem perspectiva de vida futura. Diante de uma visão materialista tão fortemente impregnada em nossa sociedade, a morte, mais do que uma separação, é também a linha divisória entre o possuir e o “despossuir”. Nisto reside, sua grande ameaça.

ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA MORTE

A consciência da morte para as crianças ainda é muito difusa. O avô que morreu pode voltar a qualquer momento, para a compreensão da criança. Somente a partir do começo da adolescência é que podem surgir os primeiros pensamentos sobre a finitude da vida, geralmente associados a um grau moderado de angústia. A experiência de contato precoce com a morte é determinante no modo como a pessoa irá encará-la no futuro. Uma criança órfã desde pequena, por exemplo, terá em relação à morte, uma atitude bem diferente da atitude do adulto cujo conhecimento a respeito é puramente intelectual e que nunca se viu na contingência de elaborar o luto pela perda de um ente querido.

Os jovens, para os quais, em situações normais, a morte não é um fato iminente, costumam não preocupar-se com o assunto. Por volta da metade da vida, durante a crise da maturidade ou da meia-idade, entre quarenta e cinqüenta anos, a maior parte das pessoas se defronta seriamente com a inevitabilidade da própria morte.

Na velhice, a aceitação da morte pode dar-se de modo menos doloroso, especialmente para aqueles que procuraram aceitá-la, não como uma oposição à vida, mas parte do processo do viver. Se isto não aconteceu, esta fase da vida pode se tornar um pesadelo, visto que o fenômeno da morte passa a estar no horizonte próximo da pessoa idosa.

COMO FALAR DA MORTE PARA UMA CRIANÇA

Dentre as coisas que os pais encontram dificuldades para comunicar aos filhos, a morte, com certeza, é uma das mais desafiadoras, não apenas por se tratar de uma perda extremamente dolorosa, mas também, por conta de todos os tabus criados por nossa sociedade, com respeito à mesma.

Porém, ao falar acerca morte com uma criança, é importante que os pais primeiramente, estejam conscientes a respeito dos seguintes aspectos:

  1. Não se pode negar uma tragédia

Diante de uma morte na família, ou entre parentes mais próximos, sendo esta morte natural ou trágica, é preciso encarar tal realidade e procurar aceitá-la. Como pais, não devemos esconder o fato aos nossos filhos pequenos, porém, comunicar-lhes o acontecido sem entrar, necessariamente, em detalhes, especialmente, quando se tratar de uma morte trágica. Os pais devem também lembrar-se de que, mesmo as crianças bem pequenas, já assistiram à morte de plantas e animais de estimação, ou até mesmo de parentes, de modo que ela já faz alguma idéia do que seja a morte, ainda que numa visão muito fantasiosa, própria do seu próprio mundo infantil.

  1. A morte é inevitável e faz parte da vida

Todos morreremos um dia e, por mais melancólico que isto possa parecer, nada há que se possa fazer para reverter tal destino. Diante desse destino, só nos restam duas saídas: o desespero ou a esperança. Na perspectiva da esperança a morte deixa de ser o fim, para ser o início de uma nova existência. Quem concebe a vida desse modo, tem mais facilidade para lidar com a morte e, certamente, isto irá influenciar na comunicação dessa realidade às crianças. Desde cedo, portanto, é importante que a criança seja informada a respeito do ciclo da vida. Não somente os seres humanos, mas as plantas e os animais de um modo geral, podem nos ajudar na comunicação da morte como parte do processo de viver. Este tipo de orientação pode nos ajudar numa visão da morte menos ameaçadora.

  1. A morte e a dor não devem ser relacionadas à culpa

As crianças sentem-se culpadas em relação à morte mais facilmente do que os adultos, porque em sua vida diária as coisas ruins acontecem sempre que elas desobedecem ou fazem alguma coisa errada. Infelizmente, nós cristãos, temos ensinado muitos conceitos danosos a cerca de Deus, aos nossos filhos, levando-os relacionar coisas ruins que nos acontecem, com o castigo imposto por Deus. Uma educação dessa leva as crianças a viverem sobressaltadas pelo temor do castigo de Deus e, pode facilmente levá-las a relacionar a morte de uma pessoa a um erro que cometeram. É importante deixar muito claro à criança que a morte da pessoa querida não foi culpa sua e dizer-lhe ainda que, mesmo que a pessoa que morreu possa ter se entristecido com alguns erros que a criança tenha cometido, se for o caso, isto de modo algum, foi o causador de sua morte. Devemos evitar a todo custo, a idéia de um Deus carrasco, que pune inconseqüentemente, todos os erros que uma pessoa comete aqui nesta vida. Esta pedagogia do medo tem causado muitos males às pessoas.

  1. Nem tudo tem explicação

A morte, e tudo o que ela encerra, é, para nós, um grande mistério. Questões da vida e da morte que desafiam a nossa racionalidade, ultrapassando os limites da nossa compreensão, nos chegam todos os dias. No mundo infantil os limites da criança são compensados por sua capacidade de criar fantasias, construir “realidades”, próprias de seu mundo, especialmente, quando os fatos da vida ainda não são acessíveis às suas construções racionais. Porém, à medida que a criança se desenvolve, passa a entender que fantasia é fantasia. Utilizando-se de sua racionalidade descobrirá que faltam muitas respostas para perguntas que já consegue fazer. E, diante da morte de um ente querido, isto vai estar evidente, de modo que não há mal nenhum em  deixar a porta aberta para dúvidas, e também, perguntas sem respostas. A criança precisa entender que isto é a vida.

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Por: Risan-Joper

 

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